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sexta-feira, 2 de novembro de 2018

FINADOS: “Assim na Vida como na vida”

“Vinde, benditos de meu Pai!” (Mt 25,34)

Todos somos criaturas procedentes das entranhas d’Aquele que é Plenitude e Presença. Filhos e filhas de Deus, gerados pelos nossos pais, desde toda a Eternidade estamos em seu pensamento e em seu coração;  daí nosso desejo de eternidade. Na Eternidade não há passado nem futuro, só Presente, aqui e agora.
Ao nascer, começamos a existir, mas já estávamos na mente e no coração de Deus; existir é ser no tempo; ao morrer, deixamos de existir, mas não deixamos de ser. Usando uma expressão poética podemos dizer que “somos suspiros de amor de Deus” e, tal como as ondas do mar que beijam a praia e retornam ao oceano que as constitui, assim nós também retornaremos à nossa Fonte original; seremos “aspirados” para dentro do coração oceânico do Deus Pai/Mãe.

Isso celebramos cada 2 de novembro: a esperança de que aqueles que morreram, já vivem ressuscitados para a Vida de Deus. No “Dia de Finados”,nós cristãos recordamos (visitamos de novo com o coração), na oração e no afeto, aqueles(as) que amamos e que já deixaram este mundo. Apesar de sua ausência física, pela fé sabemos que a morte não tem nunca a última palavra. De fato, a morte é a passagem para a Vida, para sempre; a Vida que não terá fim, pois nosso Deus não é Deus de mortos, mas de vivos. Porque para Deus, todos vivem.
Celebrar e recordar os falecidos a cada 02 de novembro e cada dia na eucaristia nos anima a viver a fé na Ressurreição e nos encher de esperança.
A experiência cristã da morte parte de uma revelação básica: Deus não quer a morte, mas a vida, a vida plena para toda pessoa humana. “Tu perdoas a todos, porque são teus, Senhor, amigo da vida” (Sab. 11,26). Somos convidados à confiança em Deus, renunciando toda pretensão de querer controlar nossa existência; somos movidos a reconhecer que os momentos cruciais de nossa vida foram “dom de Deus”, mais que planificada construção nossa.
Morrer é o processo pelo qual nos “reintegramos” na Vida que sempre fomos.

Somos viventes mortais e honramos os nossos mortos, aqueles cuja recordação ainda nos afeta. Mas todos os mortos, grandes e pequenos, santos e pecadores, são nossos, somos de todos eles, pois a mesma vida nos une na morte, e a mesma morte nos une na vida. O que eles(elas) foram na vida agora faz parte do que somos, e nossa vida deve restaurar e completar o que eles não alcançaram viver. Nisso consiste honrar os mortos: em dar culto à vida, em cultivá-la, cuidá-la, curá-la neles e em nós.
Celebrar o dia de Finados é um ato de justiça para com os mortos. Os mortos também tem direitos e é bom que se reconheça isso. Vivemos uma cultura que extingue o passado, obscurece o futuro e fica preso a um presente emocional vazio. Os mortos têm direito a que lhes agradeçamos sua vida e a marca original que nos deixaram.
Celebrar e recordar aqueles que nos precederam é negar à morte a última palavra, é afirmar que a Vida é a palavra definitiva; recordar aqueles com os quais convivemos nos faz viver a partir das raízes humanas, ancorados em nossa existência cotidiana.

Não querer ver a morte de frente, ignorá-la, apagá-la de nossa vida, fazê-la invisível..., é perder humanidade, é um auto-engano sobre a condição humana frágil, banaliza-se a mesma vida que acaba não valendo nada. Quando a morte é “consumida” diariamente nos noticiários, só se ativam emotividades instantâneas que não levam a nada, ou a uma resignação estéril diante do que acontece.
Pensamos que a morte é o contrário da vida e essa lógica é falsa. A vida é como uma moeda que tem duas faces: uma é o nascimento, a outra é a morte. Entre as duas faces está a moeda, que é o importante. É a vida que devemos dar valor, não seus limites.
Diante da necessidade inata de recordar nossos antepassados devemos aproveitá-la para encontrar segurança e sentido em nosso próprio mundo. A consciência de que somos o que somos, graças aos seres humanos que nos precederam, é uma realidade inspiradora para o nosso viver. Recordar os nossos familiares faleci-dos e agradecer-lhes o que fizeram por nós nos ajudará a fazer o mesmo por aqueles que caminham conosco.

Entrar em sintonia com os seres queridos que morreram nos impulsiona a viver com maior intensidade a vida que ainda temos nas nossas mãos. Todo o humano que eles nos transmitiram devemos potenciá-lo em nós para que o mundo vá se humanizando. Pelos mortos já não podemos fazer nada, mas sua recordação nos impulsiona para aqueles que vivem junto a nós. O maior elogio que se pode dizer de um ser humano é

que, quando partiu, deixou o mundo um pouquinho melhor que quando chegou a ele.
O grande teólogo Karl Rahner entendia a morte em chave de generosidade. Morrer, escreveu ele, é “dar lugar” aos que virão depois, é nosso último exercício de amor, responsabilidade e humildade. É, inclusive, nosso derradeiro exercício de liberdade.
Precisamos morrer, não só para que outros vivam, abrindo, com nossa morte, um espaço para eles, mas também para que valorizemos a vida como presente recebido, que vamos legando aos que vem, constituindo, assim, uma corrente de vida sempre mais expansiva.

Todos morremos, mas há mortes e mortes. Na cultura da “pós-moderna líquida” a morte se apresenta como termo, ruptura e aniquilação. Somente os que não viveram seriamente, os que esbanjaram sua vida em caprichos e superficialidades, os que semearam dor e morte ao seu redor, os que asfixiaram a vida e não se importaram com os outros, tem medo de morrer.
Os que aceitaram sua vida e se atreveram a vivê-la seriamente, os que a viveram como dom que se entrega, aceitam sua morte e a esperam de modo sereno e livre, como o descanso devido depois de uma jornada trabalhosa e fecunda. Assim como a jornada cumprida devidamente dá alegria ao sonho, uma vida bem vivida dá alegria à morte. Porque a vida valeu a pena, também vale a pena morrer.

Dia de Finados é ocasião privilegiada para confrontar a morte, como fazemos com outros medos.
Devemos contemplar nosso fim último, familiarizar-nos com ele, aprofundá-lo e analisá-lo, conversar com ele e descartar as aterrorizadoras distorções infantis sobre a morte.
Ao compreendermos, de verdade, nossa condição humana – nossa finitude, nosso breve período de tempo sob a luz -, não só passamos a saborear a preciosidade de cada momento e o simples prazer de existir, como também intensificamos nossa compaixão por nós mesmos e por todos os outros seres humanos.
Morre-se no instante da morte, como morremos ao longo da vida. Este é o caminho normal de morrer. A presença da morte na existência não se veste de luto, mas de seriedade e irreversibilidade nas decisões. Uma vida pensada sem morte perde-se, no final, na total irresponsabilidade.
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Texto bíblico:  Mt 25,31-46

Na oração:O “depois da vida” é um grande
encontro onde seremos perguntados: “o quanto você viveu sua vida?”
- “Fazer memória” das pessoas que viveram intensamente e deixaram “marcas” em sua vida.

*Texto redigido pelo Pe. Adroaldo Palaoro, SJ (Companhia de Jesus) 

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

BEM-AVENTURANÇAS: uma provocação ao mundo

“Alegrai-vos e exultai, porque é grande a vossa recompensa nos céus” (Mt 5,12)

No dia em que a Igreja faz memória de todos os Santos e Santas, a liturgia escolhe sabiamente o evangelho das Bem-aventuranças. A sabedoria deste texto, surpreendente e genial, está no fato de apresentar um projeto de realização total, de felicidade sem limites. Evangelho que nos foi confiado é um programa de vida para alcançar a felicidade, beatitude, avida ditosa, prazerosa, bem-aventurada...
Na boca de Jesus brilha sempre a palavra-chave: “Felizes”.
A primeira coisa que Jesus proclama e deseja para o ser humano é: “seja feliz, ditoso, bem-aventurado...”
Ele não faz referência às práticas religiosas, rituais, doutrinas, leis... mas à vida e vida plena, aberta e solidária, compassiva e justa, mansa e humilde...
As nove bem-aventuranças desvelam uma atitude para com os outros: a simplicidade de vida, o chorar com o outro, trabalhar pela justiça, viver misericordiosamente, ser perseguido por causa da justiça...., é centrar-se nos outros, acima dos próprios interesses.

No texto evangélico, a bem-aventurança ou beatitude tem o sentido de “estar em marcha”, de “estar a caminho”. “Bem-aventurança”, em hebraico, quer dizer “em marcha”e a infelicidade é estar imobilizado, parado sobre a própria imagem, parado sobre as memórias do passado, parado sobre o sofrimento...
Por isso a bem-aventurança consiste em dar um passo a mais. Esta é uma bela definição da “espiritualidade”, dar um passo a mais a partir do lugar onde estamos. Cada uma das bem-aventuranças é um convite
para nos recolocar em marcha, a partir do caminho que já percorremos. Há ainda muito por caminhar.
As palavras de Jesus nas Bem-aventuranças poderiam ser interpretadas no sentido em que Ele convida a nos colocar em movimento, a sair de nossa paralisia e fixação; Ele nos desperta para nos colocarmos em marcha através de nossa sede, de nossa fome de justiça, através dos lutos que temos de superar e das oposições que temos de enfrentar...
Jesus nos convida a viver uma felicidade que está em marcha.  A vida é movimento e as bem-aventuranças possibilitam a passagem de uma vida suportada para uma vida plenamente assumida.

As bem-aventuranças não são formuladas negativamente, nem na forma de um código moral, mas de maneira positiva e aberta. Elas são o compêndio do ministério de Jesus. Não é lei que se impõe por si mesma; é confissão: “o Reino chegou”.
Não é pura doutrina, mas estilo de vida, um modo de proceder. Jesus não prega diretamente uma moral. Proclama a “irrupção” da graça, do amor, da misericórdia, da justiça de Deus na história da humanidade.
Porque tem a certeza de que chegou a “hora” de Deus intervir na história, Jesus fica feliz e proclama felizes” os até agora indefesos, oprimidos e marginalizados, mas que mantiveram viva a confiança em Deus.
Os enunciados das bem-aventuranças soam à primeira vista como “idealistas”, “utópicas”,absoluta-mente irrealizáveis no mundo em que vivemos. No entanto, pela sua provocação e questionamento, elas são a proposta mais realista, mais revolucionária e mais eficaz jamais pronunciada.
As bem-aventuranças são a exposição mais exigente e, ao mesmo tempo mais fascinante, da mensagem e da “intenção de Cristo”. Elas são a plenificação daquilo que é o mais humano.

Devemos levar em conta também que as bem-aventuranças não são um “sim” de Deus à pobreza e ao sofrimento, mas um rotundo “não” de Deus às situações de injustiça, assegurando a todos o maior dom que poderíamos esperar, o seu Amor. N’Ele os pobres podem esperar, ter confiança, não para um futuro distante, mas já, aqui e agora. Pode ser bem-aventurado aquele que chora, mas nunca aquele que faz chorar. Pode ser feliz aquele que passa fome, mas não aquele que é responsável pela fome dos outros. Buscar a felicidade nas seguranças terrenas é a melhor prova de que não se descobriu o amor de Deus. Mesmo nas piores circunstâncias imagináveis, as possibilidades de ser alguém, único e original, podem se fazer presentes.

Os Santos e as Santas são as testemunhas (martyria) da vida, ou seja, aqueles(as) que, inspirados nas Bem-aventuranças, foram presenças inspiradoras no mundo, portadores(as) de valores humanos e que construíram suas vidas sobre a rocha firme do amor incondicional e generoso; homens e mulheres que “viveram um caso de amor com a vida”.
Esta é a vocação fundamental à qual somos todos chamados, enquanto seguidores(as) de Jesus Cristo.
Ser santo(a)  é ser dócil para “deixar-nos conduzir” pelos impulsos de Deus, por onde muitas vezes não sabemos e não entendemos. Seus caminhos não são os nossos caminhos.


Este “deixar-nos levar” pela mão providente de Deus é uma ousadia.
Na vida espiritual a liberdade tem que ser ousada, mas a maior ousadia é “deixar-se levar”.
“Deixar-se levar” é uma ousadia porque pressupõe a ação de Deus, um Deus que impulsiona e que impulsionará sem limites. É também uma ousadia porque a pessoa confia tranquila e descansadamente na força do Senhor que não falha. Ser santo(a) é “arriscar-se” em Deus. É navegar no oceano da gratuidade, da compaixão, da solidariedade...

O apelo à santidade perpassa toda a história do cristianismo e chega até os nossos dias. E o papa Francisco trata deste tema na Exortação Apostólica “Gaudete et Exsultate”, ou seja, o chamado à santidade no mundo atual. Numa cultura espiritualmente desnutrida, mas sequiosa de espiritualidade, como a nossa, longe de ser um tema e um assunto fora de moda, a santidade, é um assunto pertinente. É preciso revela-la a uma humanidade cansada de novidades e sedenta de verdade. É preciso purificá-la de tantas ambiguidades, equívocos, mal-entendidos para que a santidade seja entendida como um programa de vida, acontecendo no altar da vida, encarnada em pessoas de carne e ossos.
Papa Francisco fala de santidade acontecendo “ao pé da porta” (cf. n. 7), sendo, por isso, o rosto mais belo da Igreja (n. 9). A santidade não é uma subida em direção às perfeições, mas uma descida em direção à própria humanidade e à humanidade dos outros. Ser santo(a) é ser humano por excelência. E o caminho da santidade é, segundo o papa, transfigurar o cotidiano, resgatar o extraordinário em meio ao ordinário.

Frank & Ernest
Texto bíblicoMt 5,1-11

Na oração:O melhor modo de fazer esta oração é seguir
um dos “modos de orar” proposto por S. Iná-cio, ou seja:“Contemplar o significado de cada palavra da oração”(EE. 249).
* Rezar as dimensões da vida que estão paralisadas, impedindo-lhe viver a dinâmica das bem-aventuranças.
* Como ser presença visível das Bem-aventuranças no seu cotidiano?
*Texto redigido pelo Pe. Adroaldo Palaoro, SJ (Companhia de Jesus), baseado no Evangelho para a Solenidade de Todos os Santos, que é no dia 01 de novembro, mas no Brasil e em outras regiões do mundo, será celebrada amanhã, dia 04 de novembro.